Max
Cavalera quer deixar todos os problemas para trás. A começar
pela paralisia facial da qual se recupera desde o fim de fevereiro.
Também pretende fazer as pazes com João Gordo, do Ratos de Porão, com
quem brigou na primeira visita do Soulfly ao Brasil, em 1998. Quando
voltou, em 2002, fez uma turnê que o deixou com "um gosto ruim" na boca,
memória que conseguiu apagar com a recente passagem por aqui. Essa
leveza de espírito talvez seja responsável por "Enslaved" ser o melhor
álbum de sua banda atual, um trabalho que carrega o nível dos álbuns
mais memoráveis que fez com seu antigo grupo, o Sepultura. O disco, o
oitavo na discografia do Soulfly, sai nesta terça-feira (13).
Não por
acaso, a empolgação com a qualidade do trabalho levou o novo baterista
da banda a caracterizá-lo como uma espécie de "Arise [álbum clássico do
Sepultura, lançado em 1991] após usar crack". Exagero? Talvez, mas o
peso e a potência de "Enslaved" e seu olhar mais voltado para o death
metal certamente vão agradar aos fãs da melhor fase do grupo brasileiro.
Para completar, "Enslaved" conta com a participação dos três filhos de
Max em "Revengeance", uma homenagem a Dana Wells, enteado do músico que
morreu em 1996.
Em entrevista por telefone ao G1,
o vocalista e guitarrista Max Cavalera falou sobre os novos integrantes
do Soulfly e sua busca por uma sonoridade mais extrema em "Enslaved",
deu detalhes sobre a autobiografia que está escrevendo e disse que ficou
emocionado ao tocar no Brasil após 10 anos longe do país, afirmando que
o público daqui é "o mais legal do mundo".
G1 – Como você está de saúde? Já melhorou da paralisia de Bell?
Max Calavera – Já
melhorei. Fui no médico e ele falou que já passou 90% do problema.
Tomei alguns antibióticos e fiz alguns exercícios mexendo a cara, mas é
um vírus que demora um tempo pra sair. Só se percebe a melhora de três
semanas a um mês. É quando dá pra notar se vai ficar ruim ou se vai
melhorar. E no meu caso já melhorou. Os outros 10% vão melhorar no
próximo mês.
G1 – “Enslaved” já é o oitavo disco do Soulfly. Como você vê esse álbum na discografia da banda?
Max Cavalera – É
legal porque o disco ficou bem porrada mesmo. Tem gente nova na banda: o
Tony tocando baixo, que é um cara bom pra caramba e o David na bateria,
que vem de uma escola de death metal, tocando com dois bumbos e fazendo
coisas bem ligadas ao gênero. Com a ajuda desses caras eu consegui
fazer o “Enslaved”, que é um disco mais ligado ao death metal, bem
extremo, um Soulfly que ninguém estava esperando. Acho que surpreendeu
muita gente. O single é “World scum” e todos gostaram dela. Julgando por
essa música dá pra ter uma ideia de que o disco vai ser bem porrada,
bem extremo. Acho que essa fase nova do Soulfly, indo pra um lado
extremo, é um passo legal também. Mostra para os fãs que a gente está
ligado ao heavy.
G1 – Acredita que os novos integrantes colaboraram para esse peso?
Max Cavalera – Logicamente!
Principalmente o David, porque a bateria do “Enslaved” é animal, muito
legal. O trabalho que o David fez nela, junto com o Zeuss, que produziu o
disco, foi muito bom e eu adorei o som da bateria. Ele tocando parece o
Dave Lombardo [Slayer] antigo, o Pete Sandoval [Terrorizer]... O cara
segura a bronca mesmo.
G1 – Como foi chegar aos nomes que foram convidados para participar de “Enslaved”?
Max Cavalera – Sempre convidamos alguém, como em todo disco do Soulfly. No passado, tivemos Tom Araya, Corey, do Slipknot,
o Sean Lennon... dessa vez, tive a ideia de fazer com caras um pouco
mais “underground”, como o Dez, que é do DevilDriver e do Coal Chamber. A
gente se conhece há muito tempo, nossas famílias até trocam cartão de
Natal. Já em “World scum”, a ideia original era fazer com o cara do
Oceano, que é uma banda nova que eu gosto, mas ele não pôde, então
chamei o Travis do Cattle Decapitation, um grupo de death metal. O cara
tem um vocal animal e eu precisava de uma voz bem death metal para essa
música, pois ela foi feita para ter um vocal mais pesado.
G1 – Seus filhos também participam. Foi uma coisa bem natural tê-los no disco?
Max Cavalera – Estava
esperando eles ficarem mais maduros, aprenderem a tocar melhor, para
fazer uma música com eles em estúdio, que era um sonho meu. Sempre achei
que seria legal gravar com meus filhos e fazer uma música inteira.
Quando chegou a época de gravar esse disco, vi que eles já estavam bem
maduros, tocando bem e aí eu resolvi fazer “Revengeance”, que é sobre o
irmão deles, o Dana, que morreu em 1996. Então comecei a tocar com o
Zyon e fiz metade da música. Depois levei para o estúdio e o Igor, meu
filho pequeno, fez dois riffs que a gente colocou na faixa como um
refrão e uma nova introdução. Cada um de nós canta nela, eu, o Igor e o
Richie. Cada um tinha sua própria letra e seu próprio vocal, e no refrão
cantamos juntos. Foi bem legal, com a família no estúdio, um dia
divertido. A música ficou boa e eu acabei escolhendo-a para fechar o
disco.
G1
– O baterista David afirmou que “Enslaved” é como um “Arise [álbum
clássico do Sepultura, lançado em 1991] após usar crack”. Você concorda?
Max Cavalera – Acho
que ele estava animado. Quando você fica animado, essas coisas saem da
sua boca, como essa declaração louca. Achei engraçado ele falar isso,
mas acho que foi mais porque ele estava empolgado, pois saía uma música
atrás da outra, que levou ele a dar essa opinião, uma frase que acabou
sendo divulgada no mundo inteiro.
G1
– De onde veio a ideia para “Plata o plomo”, música cantada em
português por você e em espanhol pelo Tony cuja letra é sobre o
traficante Pablo Escobar?
Max Cavalera – Eu
tenho um livro que foi escrito pelo irmão do Escobar que é bem legal, e
o emprestei para o Tony, para ele ler e fazer sua parte da letra. O
Tony canta no Asesino, que é uma banda que tem um vocal death metal
muito legal, em espanhol. Então falei para ele que a gente tinha que
fazer uma música juntos e que ele deveria cantar da mesma forma que
canta no Asesino. Inclusive, quando a gente for tocar ao vivo, ele vai
botar a máscara que usa no Asesino, uma máscara de luta livre mexicana.
Na banda, o chamam de Maldito X. Fiz minha parte em português, e ele em
espanhol. O Mike botou uma guitarra flamenca que ficou muito legal. O
clima ficou bem animal, com a história da vida do Pablo Escobar. Muita
gente acha que ele é santo e outros dizem que ele é o diabo. É uma das
músicas mais legais do disco, bem diferente do restante.
G1 – Você está escrevendo uma autobiografia? Em que pé está?
Max Cavalera – Estou,
estamos vendo se dá pra sair no fim do ano, no Natal. A ideia é ser
lançada antes do fim do mundo (risos), para todo mundo poder ler antes
do mundo acabar. Está ficando legal, a introdução está sendo feita pelo
Dave Grohl, que é amigo meu. Ele sempre ia assistir aos shows do
Sepultura em Seattle. É um cara muito legal e um dos maiores “rockstars”
do mundo nos dias de hoje. Ele ficou bem honrado em poder fazer a
introdução do livro, que vai ter entrevista com muita gente, como Tom
Araya e Sean Lennon. Falo de como cresci no Brasil, nasci em BH e me
mudei para São Paulo, falo da morte do meu pai, da criação do Sepultura,
de como eu fiz o Sepultura assinar com a Roadrunner, quando fui viajar
para Nova York de terno e gravata, com o cabelo amarrado pra trás, com
uma passagem de graça, pois fui como executivo da PanAm, que nem existe
mais. Outra que já virou mito é a de quando vomitei no Eddie Vedder...
Vai ter tudo isso no livro.
G1
– O Sepultura e o Ratos de Porão sempre foram bandas irmãs, surgindo
mais ou menos na mesma época e tocando juntos por diversas vezes. Ainda
mantém contato com o João Gordo?
Max Cavalera – Não
tenho, mas através do Iggor, que o conhece e continua a amizade com
ele, ele falou que queria me ver e eu também queria me encontrar com
ele. Tivemos uma treta errada no primeiro show do Soulfly em São Paulo
[em 1998], uma discussão quando a gente esteve na MTV. Acabamos
brigando, nem sei o motivo, não dá nem para entender. Eu queria botar
tudo para trás e continuar a amizade com ele, sou amigo, gosto muito do
Ratos e, para mim, não tem muito a ver ficar brigado com as pessoas.
G1 – O Soulfly tocou recentemente no Brasil. Como foram os shows aqui? Como é voltar para cá e tocar para o público brasileiro?
Max Cavalera – Muito
animal. O Brasil foi demais. Valeu a pena esperar 10 anos para tocar
aí. O show de São Paulo foi muito emocionante, é o público mais legal do
mundo. Foi o melhor show da turnê, não tenho palavras para expressar
como foi. As pessoas cantaram todas as músicas, das mais antigas às
novas, do Sepultura ao Soulfly... cantaram tudo, como se fosse uma banda
só. Para mim, isso foi muito legal, porque o show que a gente fez da
outra vez não foi muito legal, foi meio sacaneado, meio sabotado. Rolou
uma grande confusão e ficou um gosto ruim na boca, então queria botar
isso para trás. Esse show agora em São Paulo detonou, o do Circo Voador,
lotado, também. Vi muitos amigos antigos, encontrei gente que não via
há 20 anos. Outra coisa excelente foi meu filho Zyon tocando bateria.
Levei ele só para a América do Sul, era uma coisa que queria fazer de
especial e ele detonou.
G1 – A ideia para 2012 é excursionar? Vão para a Europa depois de tocar na América do Norte?
Max Cavalera – Sim,
vamos começar agora pelo México, e aí vamos tocar nos Estados Unidos, e
então seguimos para a Europa para tocar nos festivais de verão. Depois,
continuaremos a tocar até o fim do ano.





































































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